Auch!

27.10.10
"mas como eu odeio a mediania! De resto, a mediania é um estranho objecto de estudo: humilde, ambiciosa e sem ilusões. (...)" Virginia Woolf

As reticências no fim da frase significam que esta parte do texto não foi traduzida na íntegra (o diário foi publicado em cinco volumes e a edição portuguesa resumiu-o para dois). Apetece-me procurar o original para saber se a escritora continua a discorrer sobre a mediania. É que é um assunto que anda a passear na minha cabeça há décadas. Odeio ser mediana. E só vivo relativamente bem com isso, porque a doutora Soledade disse que era uma coisa boa. E eu acredito em tudo o que ela diz.

Ah, naturalmente a mediania a que Virginia Woolf se refere é à de terceiros.

O jardim

22.10.10
No lado esquerdo ficarão as aromáticas; em frente talvez deixe ficar os cactos e planto a buganvília mais umas quantas flores; No lado direito ficará a horta e no lado de cá teremos o grelhador num canto e o compostor no outro.
É uma pena estar ali no meio uma palmeira em vez de uma árvore de frutos, mas enfim ainda deve dar para um limoeiro, ou abacateiro.

É capaz de ser da idade

22.10.10
Não sei bem como explicar isto mas acontece-me sentir a testa encorrilhar-se toda e, juntamente com as pálpebras, cair para cima dos olhos deixando-me sem enxergar o que se passa à minha frente e ao mesmo tempo com falta de ar.

treze semanas e meia

21.10.10
A data provável do parto é 24 de Abril, mas espero bem que faça como os outros e se aguente mais uns dias (não mais do que três, obrigada), porque não quero estar no hospital no dia em que a primogénita festeja o décimo aniversário.

Não há fome que não dê em fartura

19.10.10
Para o caso de estardes preocupados devo dizer que apesar do buraco no estômago - só porque não se vê não quer dizer que não esteja lá, como o do Boris Yellnikoff - as coisas correram bem. O Isaac gostou da Vera e ao que parece divertiram-se muito enquanto o pai desesperava numa reunião de burocratas e a mãe inventava palavras para descrever o Pepe que pastava vacas numa paisagem mexicana.
As cenouras, ou a falta delas, não acrescentaram mais prejuízos além do esgotamento da glândula lacrimal e acabaram por ser substituídas pela abóbora que, juntamente com a batata e as ervilhas, resultou num belo consomé.
Agora vou aproveitar a fase hipomaníaca e tratar de umas coisas urgentes.

Acabaram-se as cenouras

19.10.10
e eu não sei fazer sopa, muito bem, sem cenouras. As últimas terão sido usadas ontem, mas não me lembro. Quando é assim deve comprar-se mais, para não acontecer eu querer fazer sopa e não ter cenouras, nem poder ir comprar porque o bebé está a dormir. O ideal, até, é nunca deixar acabar as cenouras. Mas acabaram, pronto, que hei-de fazer senão chorar como se a minha vida estivesse a acabar também?

babysitter

18.10.10
O jantar do bebé está pronto. A casa está aceitável. Podes vir senhora desconhecida que vai cuidar do meu bebé durante três horas e meia (entretanto vou tentar não abrir um buraco no estômago tamanha é a ansiedade).

Há sensações universais 1

15.10.10
"Fico sempre satisfeita quando se chega ao fim de uma visita e vejo que a simpatia se não alterou (...) - e no entanto fico sem saber como explicar esta sensação de esforço e de mal-estar que as pessoas de quem mais gosto conseguem produzir em mim." Virginia Woolf.

Outra casa

15.10.10
É a terceira vez que mudo de casa grávida. Da primeira, quando me mudei do Largo da Maternidade para a Boavista, foi o meu irmão e um amigo, que por acaso era o Jaime, que ajudaram. Da segunda, quando vim para Lisboa, foi um grupo de amigos (incluíndo o Jaime, naturalmente, mas já não apenas amigo, e o pai da Beatriz, quase ex-marido e ainda amigo, na altura) que ajudaram a carregar a carrinha no Porto e outros a descarregar aqui em Lisboa. Da terceira, daqui da Tomás da Anunciação ali para o jardim da Parada, será uma empresa de mudanças.
Das duas uma: ou temos cada vez mais tralha, ou cada vez menos amigos. Acho que é um pouco das duas. Uma pena isto de irmos enchendo a vida de coisas e esvaziando de pessoas. Mesmo que as pessoas sejam uma merda, grande parte do tempo.

Coisas novas

12.10.10
"Velha janeleira"- velha que passa o dia à janela.

Mais lá para a frente talvez conte coisas desta experiência que é fazer um curso de escrita criativa. Mas, já agora, aproveito para registar que a minha vida está muito mais animada, ou colorida, com o pequeno a caminhar pela casa. Ao amarelo e branco do chão da cozinha, por exemplo, juntou-se o verde do majericão que ele espalhou convictamente.

...

11.10.10
Perdi totalmente o controle da situação: Há roupa espalhada pela casa, brinquedos em sítios mais que improváveis, novelos de pó a rolar pelo chão e no meio disto tudo eu sempre despenteada e de lábios gretados. O que vale é que o bebé está feliz.

Banalidades

8.10.10
Ao ler o diário de Virginia Woolf apercebo-me que nos primeiros dois meses do ano de 1915 a única coisa que ela fez além de escrever, ler, passear com o marido, assistir a concertos e, ocasionalmente, jantar com amigos foi limpar as pratas uma vez. Actividade que descreveu como "uma coisa fácil e proveitosa de se fazer". Também tinha intenção, num dos dias, de coser um vestido que se desfez num dos passeios, mas não lhe apeteceu.
Cada vez mais me parece evidente que isto de ter que ganhar a vida a trabalhar é uma tremenda perda de tempo. Ou então, não, é uma forma de não nos suicidarmos aos 50 e poucos.


Virginia Woolf, Diário, Primeiro Volume 1915-1926, Tradução Maria José Jorge, Bertrand Editora, 1987

A lentidão dos dias

7.10.10
Esta coisa de ter um bebé de um ano, uma filha que perde as pautas do órgão a caminho da piscina e que nunca sabe onde deixou as sapatilhas, um humor próprio do primeiro trimestre da gravidez, mais a mudança da casa é capaz de ser areia a mais para a minha camioneta. E eu tenho uma camioneta daqui até ao Brasil, mas a bem dizer a areia é da grossa, daquela da praia da Póvoa.
É que ainda por cima preciso de me levantar 20 vezes durante a noite para fazer xixi, logo agora que o bebé dorme razoavelmente e quando não o faz o pai trata dele! Também começaram as insónias e os sonhos totally freaks para ajudar à festa.
Talvez a doutora do hospital tenha razões para ficar chocada ao ouvir que não tenho ninguém para me ajudar com o bebé (tirando o pai, claro), talvez eu devesse falar com pessoas verdadeiras e não com as que estão na minha cabeça, ou, quem sabe, podia tentar ir ao ginásio e ao cinema, mas quando, quando????? ao fim do dia estou morta e às 8h30 (quando o ginásio abre) quase a morrer.
Enfim, pelo menos os meus amigos fizeram o favor de se meter à estrada num dia de inverno para cantar os parabéns ao Isaac e, dessa forma, evitar que eu tivesse de viver com o meu pior pesadelo: uma festa sem ninguém.

Vida de emigrante

6.10.10
Mais uma vez voltámos mais cedo para Lisboa do que previsto. É estranho isto de termos os amigos, os afectos, a família lá e a nossa vida cá...

Coisas boas de Lisboa 5

1.10.10

Economia familiar

1.10.10
A enfermeira F. foi despedida. Avizinham-se tempos difíceis no Centro de Saúde Santo Condestável.