O que se passa com as árvores?

16.8.17
Não sei se é por Mercúrio estar retrógrado, ou se é por ser Agosto, esse mês terminal, como em tempos defini, mas parece que a vida está suspensa. Fazemos as mesmas coisas de sempre, sentamo-nos a comer, saímos para comprar água e detergente da roupa, falamos sobre o futuro, enquanto não é formado um novo Governo, sacudimos a areia dos pés antes de entrar no carro, ficamos indignados com a marcação da leitura da sentença do português e da mulher, retidos em Timor há três anos, chocados com a morte de três pessoas num acidente, causado por uma árvore que caiu em cima do carro em que viajavam (o que se passa com as árvores? 13 mortos e 49 feridos, na Madeira. Três mortos e dois feridos em Manatuto).
Pensando bem, não fazemos as mesmas coisas. Repetimos gestos e convenções para não dar em malucos. Seguimos em frente, mesmo quando no início da estrada está o sinal com a fita branca e as cadeiras já estão a ser alinhadas para o funeral da criança, mesmo quando os gritos das mulheres ficam a ecoar dentro de nós.

O vestido amarelo

7.8.17



Numa tarde fizemos um vestido amarelo (nota para mim própria: nunca mais costurar alguma coisa a partir de tutoriais de youtubers). Foi uma tarde com muitas tardes, e vestidos, dentro. Por exemplo, as tardes dos vestidos da Inês de Castro e da Jasmin quando ela estava no infantário. Aquela outra do vestido da Alice no País das Maravilhas, quando estava na primária, igual ao que vestia numa tarde em Paris, quando viajámos sozinhas. Ou a tarde que se prolongou pela noite dentro por causa do vestido do século XVIII, para a apresentação de um trabalho na aula de português do 8.º ano.
Pensei que nunca mais voltaria a ter dessas tardes até ao vestido amarelo.
O vestido amarelo, além de ser um vestido que eu pensei que nunca viria a existir, vai ser sempre especial, apesar de todos os defeitos, porque foi o primeiro que fizemos juntas, com ela a costurar comigo.
E foi o único que teve o privilégio de ser fotografado na Pousada de Baucau o que, convenhamos, o favorece grandemente.