Auto-retrato

13.2.17

Apetece-me deixar crescer a melena com cada vez mais brancas e ficar com uma daquelas cabeleiras mescladas que agora estão muito na moda. Só que depois apercebo-me que essas cabeleiras mesmo não sendo pintadas, exigem cuidados. Ainda por cima, os meus cabelos brancos são aqueles cabelitos que ficam no ar quando prendo o cabelo, estão a ver? (Parece que se chamam baby hair, tornando esta coisa do envelhecimento ainda mais engraçada)
Nunca nada é como imaginamos. Uma pena.

Quando falha a luz, ou quando sou a única pessoa acordada e não está a dar nada de jeito na televisão e não me apetece ler, ou jogar no telemóvel (estou viciada num jogo parecido com o Tetris), ponho-me a ver as melhores audições do Britain Got Talent no youtube e farto-me de chorar, sobretudo naquelas em que os familiares dos concorrentes não conseguem esconder o orgulho. Eu sei, tenho problemas. Também chorei no La La Land.

Já pensei várias vezes coleccionar notícias de pessoas que morrem em acidentes inusitados, como o da mulher de 29 anos que caiu de umas escadas rolantes, no World Trade Centre, em Nova Iorque, a tentar apanhar o chapéu da irmã gémea. O que é que lhe deu? Ainda por cima era treinadora de remo, como é que uma treinadora de remo se desequilibra e cai de umas escadas? A sério, se eu quisesse inventar um acidente nunca me ocorreria tal coisa.

No fim-de-semana fui à praia com os miúdos sozinha, porque o Jaime tinha de trabalhar. Sentei-me numa cadeira e avancei 50 páginas do livro, enquanto eles brincavam com outras crianças que lá estavam. De vez em quando olhava para o mar e suspirava (e perguntava-me como é que a Areia Branca se tornou uma praia tão suja nos últimos tempos) com aquela satisfação de quem tem os miúdos por ali a rir e a inventar brincadeiras, enquanto nós estamos na nossa vida.
Percebi, finalmente, porque há tanta literatura, tanto cinema e tanta arte em geral, que mostra os filhos crianças como acessórios que aparecem de vez em quando.

O livro que estou a ler é O Fim do Homem Soviético e, felizmente, é tão viciante como o Tetris, um jogo inventado na Academia Russa das Ciências (claro), em 1984. E agora fiquei a pensar se isto significa que devo voltar ao George Orwell.

Mãe à distância

3.2.17
Muita gente tem-me perguntado sobre como é estar longe da Bea. Não tenho a certeza se sei responder.
Sei que viver longe dela, não vê-la todos os dias, não saber só de olhar como lhe correu o dia, não a ouvir atropelar-se nas palavras ou nos mutismos seleccionados, é mais fácil do que a ideia de estar longe dela. Ou seja, custa-me mais pensar nisso, do que viver isso. 
Além disso, eu sabia, desde os tempos em eles medravam na mesma proporção em que eu definhava, que este dia haveria de chegar. O dia em que saem de casa. E esse dia é estranho, doloroso, brutal mesmo, mas esse dia chega sempre, ou espera-se que chegue.
Costuma ser aos poucos, porque eles vão mas vêm passar o fim-de-semana a casa, isto é, vêm lavar a roupa e comer refeições cozinhadas. No nosso caso foi assim de repente e por isso acho que ficámos numa espécie de limbo nas semanas seguintes.
Agora, quatro meses depois, já não temos a escova dos dentes dela no quarto-de-banho e já me habituei a tirar quatro pratos do armário.
As comunicações eram difíceis no início, ela falava muito pouco connosco e quando nos queixávamos disso ela argumentava que andava aflita a mudar de vida, a fazer novos amigos, a encaixar-se numa nova rotina. O fuso horário não ajuda nada e ainda por cima eu odeio o skype. Aquilo enerva-me, os miúdos ficam histéricos a falar ao mesmo tempo, a fazer palhaçadas para impressionar a irmã, etc. Não se consegue verdadeiramente conversar assim, nem com a internet a falhar.
Preferimos usar o messenger sempre que nos apetece, e tem funcionado. Às vezes estamos as duas acordadas e ficamos a conversar, outras respondemos uma à outra com horas de diferença.
Eu sei que ela está bem, apesar de nem sempre ser fácil, mas sobre isso não posso falar, porque seria entrar na intimidade de outra pessoa.
Posso dizer que a sinto muito crescida, entusiasmada com a escola e preocupada com o futuro. Sei quase nada do seu dia-a-dia e isso deixa-me, às vezes, profundamente nostálgica, mas ela tem quase 16 anos, mesmo que vivesse aqui em casa eu acabaria por saber pouco do que se passa na vida dela. Bem, aqui em Díli, por acaso, seria difícil não saber dada a dimensão da cidade, mas que me interessava tê-la debaixo de olho e, talvez, mais controlada pelo meio envolvente se vivia infeliz?
Eu lembro-me bem de quando tinha 16 anos e de como a minha mãe e avó tinham pouca importância para mim. Era bom saber que elas existiam e estavam lá para o que fosse preciso, claro, mas os meus amigos é que eram a minha família.
Portanto, não estou à espera que sejamos o centro da vida dela, nesta fase, mas era importante estar mais perto fisicamente nem que fosse só para levar com a ingratidão da adolescência nas bentas.
Enquanto isso não acontece vou-lhe seguindo os passos com os meios que disponho: os e-mails do pai, o google maps, o facebook e por aí fora.
Ela chama-me stalker e eu não me importo.

Ventura

31.1.17

Um dia vou conhecer muitos países, uns mais superficialmente do que outros, e vou poder dizer com alguma segurança, acho eu, onde é que me senti mais feliz, ou infeliz.Vou perceber, rapidamente, que o sítio terá menos a ver com isso do que com o quê e quem levo comigo, mas vou encontrar, de certeza, países com qualquer coisa de primordial que nos faz sentir uma espécie de bem-aventurança.
O Sri Lanka é um desses países.

Sim, fui feliz no Sri Lanka, comecemos já com o chavão. Fui feliz pela razão óbvia: o reencontro com a Bea passados três meses e meio. Fiz um grande esforço para não desabar num pranto de lágrimas assim que a vi sair da porta do aeroporto. Escusado será dizer que o pranto começou muito antes disso, porque se há coisa em que sou boa é a antecipar momentos, mas estávamos num aeroporto, no terminal das chegadas, há lá sítio mais emocionante?
Ela chegou. Eu chorei. O Jaime choramingou. Os irmãos agarraram-se a ela como lapas e foram assim até ao táxi do Sr. Siri.

O Sr. Siri (o som do nome era este, apesar de não existir nenhum parecido numa lista da internet com os 100 nomes mais comuns no Sri Lanka), tinha ido buscar-nos ao hotel nessa manhã. Nós chegámos um dia antes da Bea e por isso ficámos a saber que para entrar no aeroporto é preciso pagar. Estava explicada a quantidade de pessoas na rua à espera de quem chega. Nunca tinha ido buscar uma pessoa ao aeroporto num país onde não vivo. É estranho, porque dá-nos a paradoxal sensação de sermos dali.
Ele, o Sr. Siri, tinha comprado bananas e disse que podíamos comê-las. Os meus filhos que já vão percebendo inglês agarraram-se ao cacho e começaram a devorá-las. Eu fiquei meio sem jeito com aquele comportamento esfomeado mas cruzámo-nos com o amigo sapateiro do nosso taxista, que nos acenou da bicicleta, e as bananas deixaram de ser assunto.
Combinámos que seria ele a levar-nos a Colombo e no dia seguinte telefonámos-lhe para nos levar também a Sigiriya. Fica-se quase amigo dos taxistas, dos condutores de tuk tuk, do pescador das lagostas, do cozinheiro que as preparou para nós, porque há como que uma familiaridade boa entre todos. Por exemplo, sei quantos filhos têm os cingaleses com com quem troquei mais de meia dúzia de palavras. O Sr. Siri tem quatro, três raparigas e um rapaz.

Também fui feliz no Sri Lanka porque sou sempre feliz no meio da Natureza. Deve ser uma coisa que me ficou dos tempos em que levava vacas ao posto e apanhava pinhas na bouça. E no que diz respeito à Natureza no antigo Ceilão não há como não ficar impressionada. Eu vivo numa ilha tropical, estou habituada à abundância de plantas e animais, mas como aquilo nunca tinha visto. São mais de 100 as áreas protegidas deste país e não por acaso, de certeza, a primeira reserva do Mundo foi criada aqui, no século III. Portanto, acho que só por aqui dá para se perceber a minha impressionabilidade. Depois, uma pessoa vai na estrada, ali na zona entre Dambulla e Polonnaruwa, por exemplo, e vê passar os elefantes lá ao fundo, ou abranda para para mirar um par de lagartos gigantes, Water Monitors, na berma, ou fica de boca aberta a olhar para os pássaros nas árvores, enquanto os ovos do pequeno-almoço arrefecem, ou aborrece-se com os macacos que aparecem em todo o lado.
E quando se dá o caso dessa pessoa se encontrar no meio de uma manada de elefantes, no momento em que todos os jipes do safari desligam o motor, acontece magia. Eu até gostava de explicar mas, já se sabe, a magia não se explica.

E há a viagem de comboio mais bonita do mundo. Deve ser um exagero, claro. Mas não parece. Além da viagem em si, porque para andar de comboio nem sequer é preciso um destino, como diz Paul Theroux, há o valor acrescentado da paisagem em looping (a linha faz mesmo um loop depois da estação de Demodara), da ponte com os nove arcos e dos sorrisos deles, dos meus filhos, com as cabeças de fora da janela. Não sei se podia ser noutro comboio qualquer, aquela felicidade, que não naquele a caminho de Badulla.

Ainda por cima, come-se bem no Sri Lanka, por isso as pessoas que são felizes a comer, como eu, são felizes no Sri lanka. O rice and curry é uma mistura de sabores perfeita. A parata com um café cingalês, no cume fresco de Haputale, é um milagre - transformar água e farinha num pão daqueles é como transformar água em vinho.
E depois, a cereja em cima do bolo, ao contrário da maior parte dos países asiáticos há um número bastante considerável de wine shops. Sim, é preciso descer a caves, em muitos casos, e é tudo feito com muito secretismo. Mas, quer dizer, quem é que não gosta de esperar pelo seu gangster, no meio dos caixotes de lixo, rodeada de corvos?

Já está

10.1.17

Ficar muito tempo sem escrever num diário levanta um grande problema: Deve uma pessoa seguir escrevendo, como se não tivesse havido um hiato de tempo? Na verdade, ainda não passou um mês, e não há assim tanta coisa a acontecer num mês, certo? Errado.
A vida numa ilha tropical do sudeste asiático pode ser muito aborrecida, não sei se é por isso que os expatriados bebem tanto, mas ao mesmo tempo parece que está tudo a acontecer. Como se os fragmentos dos dias formassem um todo mais claro. O que até faz sentido, porque os dias passam mais lentos e nesse abrandamento é mais fácil ver a paisagem à volta.
E vejo uma filha quase adulta e um quase recém bebé que vai este ano para a escola primária, que é aquele patamar em que os pais dão por terminada a primeira infância.
Acho que é por isso que este blog deixou de ser o diário desesperado de uma doméstica (sim, é mais giro stay-at-home-mom, mas o glamour nunca foi o meu forte e eu até acho que tentei algumas vezes).
Por isso e porque agora não tenho de limpar a casa, lavar a roupa e secá-la em cima dos aquecedores, limpar a areia dos gatos e levar os miúdos a um jardim para correrem em liberdade. Bem, esta última parte até podia ser uma coisa gira, só que nem por isso. Para mim era uma canseira. Até tinha pesadelos com o mais pequeno a cair daquela girafa do jardim da Estrela.
E até me podem vir dizer que o pior está para vir. Que quando são pequeninos é que é bom. Sim, é bom, de uma forma peculiar, mas também é tremendamente exigente. O que faz com que acredite, talvez erradamente, que a parte difícil está feita. Ou isso, ou comecei a viver naquelas bolhas em que se põe lá dentro o que nos interessa.
É que a bem dizer eu nunca me preocupei tão pouco com a educação deles como no último ano (e até tenho um filho sem vontade nenhuma de aprender o currículo escolar), mas a sensação que tenho é que tudo está a correr bastante bem (sim, eu acabei de escrever isto).
Pois, mas isto não aconteceu durante o mês em que não escrevi aqui, poderão dizer-me. Pois claro que não, isso tem vindo a acontecer.
O que aconteceu no último mês foram as mesmas coisas de sempre. Hoje, por exemplo, acordei tarde, fui mordida por formigas assassinas, porque não reparei que a toalha do banho estava cheia delas outra vez, e depois comi uma panqueca feita no micro-ondas, porque o gás acabou precisamente quando ia começar a fazê-la no fogão.
Mas também aconteceu uma viagem com um reencontro ansioso e uma despedida dramática. Com momentos de contemplação que só as viagens proporcionam e com a sensação (um pouco intensificada pelo fim da leitura do livro "O Grande Bazar Ferroviário", no fim da viagem) de que esta parte da vida já está. Passemos à seguinte.

Continuar a cantar

13.12.16
A Patti Smith esqueceu-se de uma parte da letra da canção "Hard Rain's A-Gonna Fall", de Bob Dylan, durante a actuação na entrega do Nobel. Ela disse que estava muito nervosa, os meios de comunicação social disseram que estava emocionada, mas nada disso interessa. Interessa o poema, a interpretação, com a falha incluída, ou talvez nem isso.
A mim interessa-me o que lhe terá passado pela cabeça, naqueles milésimos de segundo em que percebeu que não se lembrava do que vinha a seguir. Aquele momento transformado em buraco negro.
É mais ou menos isso, esses buracos negros, que passamos toda a nossa vida a evitar. Os momentos "e agora?"
E é por isso que nem nos passa pela cabeça não ter um emprego, não ter a roupa pendurada no roupeiro, não beber café, não mandar os filhos para escola, mandar os filhos para longe, ou viver sem "a triste comédia de uma reunião de amigos", como tão bem diz Theroux n' "O Grande Bazar Ferroviário".
Mas, pelo que vimos, não é assim tão mau. Atravessa-se o buraco negro, pede-se desculpa e continua-se a cantar.

Querida Mónica

30.11.16
Fotografia possível, com os músicos do projecto Sal de Terra. Não se vê do lado direito o músico português, Paulo Pereira.

Pedi ao Tó Zé para te retribuir o beijinho (posso tratar-te por tu, não posso?) mas depois achei que tinha de vir aqui agradecer-te publicamente.
É que isto de estar a almoçar no Hotel Timor e ser abordada pela Sara para me apresentar um dos músicos do projecto Sal de Terra, que me quer conhecer, porque a mulher dele é fã do meu blog, é uma cena espectacular. A sério, não estou a exagerar. 
Eu estou a almoçar em Díli, num hotel requintado e que não perdeu completamente (nem sei se pretende) o ambiente colonialista. Estou com os meus dois filhos e o Jaime. Estamos com pressa, porque acabamos de chegar de Balibó e o mais novo insiste que quer ir à escola. Como sempre não reparei quem estava no restaurante, não só porque não me interessa, mas também porque vejo mal ao longe e parece-se escusado estar a percorrer a sala com os olhos semicerrados. 
Chegou a minha massada de peixe cheia de coentros (que sabiam a coentros) e o tornedó do Jaime. 
Pouco depois aproxima-se a Sara com o Tó Zé e faz as apresentações e eu, além de incrédula, estava com um carrapito ridículo. Foi tudo tão isto está mesmo a acontecer? que até demorei a perceber que o Isaac estava pendurado em cima do teu marido, como se o conhecesse há anos (ias adorar esta cena, Bea!)
Na verdade, ele é mesmo muito simpático e de fácil conversa mas eu, ao contrário do Isaac, que parecia achar tudo muito natural, não conseguia sair da minha incredulidade. 
Além disso, a espectacularidade deste episódio levou-me ao concerto que os Sal de Terra deram na UNTL (Universidade Nacional de Timor-Leste), nessa tarde, e foi mesmo, mesmo muito bom. 
Obrigada. 
Ah, e agora o Isaac quer toca viola campaniça. 

Carta aberta à Comissão de Festas de Vila Verde

16.11.16
Caros Senhores Responsáveis pela Organização de Todos os Aspectos Relacionados com a Concretização do Presépio do Bairro de Vila Verde,

Eu sei que sou só a malae que vive mesmo, mesmo ao lado do presépio deste bairro e que não percebe nada dos vossos costumes, o que aliás se nota por não ter mencionado todos os nomes das pessoas envolvidas neste processo, no início desta carta, e por isso peço desde já as minhas desculpas, mas no segundo ano consecutivo do advento sinto-me no direito de perguntar se vou ter de levar com a música nestes decibéis até ao final do ano. É que, vejam bem,  estamos a meio de Novembro e viver dentro de uma discoteca durante um mês e meio é, no mínimo, surreal.
Reparem, eu acho bastante libertador expressarmo-nos musicalmente e não ter limites para isso. Acho, inclusive, piada ao karaoke que acontece frequentemente na minha rua, até às duas, quatro, seis da manhã, em qualquer dia semana (desde que não seja todas as semanas). Acho também piada às cantigas que se cantam em grupo ao lado da janela do meu quarto. Algumas são mesmo bonitas e bem cantadas. E até tolero os gritos, porque aprecio mesmo essa característica histriónica dos timorenses (menos quando se põe às voltas de minha casa com os tubos de escape das motas rotos). Mas, quer dizer, para tudo há um limite, digo eu.
Portanto, o que eu gostaria de pedir a V. Excelências, e tendo em conta que não vou dormir até 2017, ao contrário dos restantes vizinhos, acostumados a tudo isto, é se pelo menos posso sugerir músicas. É que uma coisa é não aguentar o ruído, outra coisa é sofrer com má música.

Agradecendo a atenção dispensada, subscrevo-me

Atenciosamente
Carla Fonseca

P.S Mal terminei este texto, às 22h36, a música baixou radicalmente de volume. Se for assim todos os dias da semana ignorem esta carta.

A árvore da montanha

8.11.16

Vulcão Batok, o que fica mesmo ao lado do Bromo, dentro da grande cratera Tengger

Estivemos dez dias a passear por Java e no fim pensei: Vou escrever uma crónica de viagem. Eu podia ter pensado: Acho que me apetece escrever sobre Java, e depois abria o computador e escrevia. Mas não, pensei "crónica de viagem" e logo ali fiquei sem saber o que dizer.
Por acaso não é bem assim, porque eu até sei o que queria dizer. Eu queria dizer que há muitas cebolas à volta do Bromo. Só isso. Dizia: Fui a Java e vi muitas cebolas, campos e campos de cebolas, nas redondezas de um vulcão que deita fumo. E pronto.

É claro que isto assim não seria uma crónica de viagem. As crónicas de viagem são como a canção da Árvore da Montanha que tem um lindo tronco, e esse tronco lindos ramos, e esses ramos lindas folhas, e essas folhas lindos ninhos, e esse ninhos lindos ovos, e esses ovos lindos pássaros.
E a minha crónica podia ter a decoração, com videiras de plástico e guarda-chuvas pendurados, da estação de autocarros de Kota, em Jacarta. E a seguir encadear o Tamansari (Palácio da Água) do arquitecto português que o Sultão de Yogyakarta mandou matar, no século XVIII, para manter secretos os compartimentos de prazer e, depois, discorria sobre os templos de Borobudur e Prambanan e até, quem sabe, sobre o parque infantil de Malang, provavelmente a cidade mais europeia da Indonésia. 

Ou, melhor ainda, fazia o roteiro gastronómico da coisa. Começava pelo início, isto é, por Jacarta e apresentava o Café Batavia. Seria simples, muito antes do frango com molho de limão e do mix de dimsum já estávamos rendidos ao espaço e toda a gente sabe como é simpático comer num sítio bonito. Na segunda paragem, em Yogyakarta, teria de falar da tartin de anchovas, do carpacio de vitela e do kebab de frango do Mediterraneo e depois, em Malang, e por muito que o Inggil me tenha surpreendido, aquele chef special do Melati, era de agradecer a todos os deuses hindus, a Alá, a Deus nosso senhor e por aí fora. Sim, gostamos de comer bem, sempre que possível, da mesma forma que podemos passar oito horas metidos num comboio a comer bakso duvidosos e mi gorens na beira da estrada. Não somos esquisitos.

Também podia (e já vou não sei em quantas crónicas diferentes) falar de coincidências, que é um dos meus temas preferidos.
Em Jacarta, o ponto de partida para conhecer Java, tivemos pouco tempo e o único museu que conseguimos visitar foi o de marionetas Wayang, que parece que tem uma das melhores colecções deste tipo de marionetas.
Apesar de todas as legendas estarem em indonésio foi interessante ver os incríveis detalhes de algumas delas e, além disso, os rapazes divertiram-se bastante. 
No dia seguinte, durante a longa viagem de comboio até Yogyakarta, estava a terminar o livro do Pedro Rosa Mendes, Peregrinação de Emmanuel de Jhesus, e leio uma passagem em que um bispo decide contar a guerra de Bratayuda usando marionetas Wayang. Os personagens são Sanja e Karna. Karna é meio-irmão de Arjuna e luta pelo reino de Kurawa. Sanja pelo Pandawas. Ambos morrem nesta guerra, mas isso não interessa nada, na verdade.
Eu não estava à espera de encontrar uma referência às marionetas Wayang neste livro, apesar da variedade de temas que o autor vai aflorando, desde a arquitectura timorense até à pencak silat, uma arte marcial. E nem fazia ideia que a pequena marioneta em miniatura que trouxe da loja do museu era Abimanyu, o filho de Arjuna. Pois.

Continuando, o que eu queria dizer, se ainda se lembram, era que fui a Java e vi muitas cebolas, campos e campos de cebolas, na redondezas de um vulcão que deita fumo. 
É muito impressionante o Bromo. E tem qualquer coisa de mágico, só pode, porque o meu filho mais novo nunca consegue andar com dores nos pés, e ali trepou pelo vulcão acima como se nada fosse, enquanto eu mal conseguia respirar. Ainda por cima morri de medo. Juro. A cratera tem uma vedação, mas uma pessoa que escorregue (e é muito fácil escorregar naquele piso) passa perfeitamente pelo meio, directamente para dentro do vulcão. E eu acabo de escalar as últimas escadas e que vejo? O Nicolau ali debruçado. Eu senti o coração parar. Por breves e instantes segundos, tenho a certeza, morri de medo.
É muito impressionante, mas eu estava a falar das cebolas, não era?

Portanto, já tínhamos descido os 253 degraus, mais uns poucos de metros da encosta do vulcão, mais os dois quilómetros de caminhada pelo "mar de areia", já tínhamos visto um mini tornado na cratera (o Bromo é um dos três vulcões que existem na grande cratera Tengger), e seguíamos no jipe que nos ia levar ao carro que nos ia levar a Banywangi, e eu via campos de cebolas. Via campos de cebolas e pensava nas mãos das pessoas que as plantaram. Eram mãos como as minhas, mãos que cozem arroz, que dão colo, que seguram nos filhos, que teclam nos telemóveis (64 milhões de indonésios usam o facebook), que lavam a loiça e ensaboam cabeças. E o mais fascinante nisto de viajar é isso mesmo, é perceber, como diz Pat Walsh, citando o Dictionary of Obscure Sorrows de John Koening , "que cada pessoa com quem nos cruzamos está a viver uma vida tão intensa e complexa como a nossa...preenchida com as suas próprias ambições, amigos, rotinas, preocupações e loucuras herdadas"*. 

*tradução livre

Já não sou blogger

13.10.16
O Isaac fez anos e teve uma festa exageradamente grande. Mais do que feliz, o petiz esteve birrento e cansado. Vieram duas amigas de Portugal visitar-nos e viveram aqui em casa mais de uma semana. Antes disso, participei numa road adventure (atentem na chiqueza do nome) e conheci mais uns sítios incríveis aqui em Timor. Esfolei os joelhos, e tudo, e tive um certo medo que acontecessem coisas piores enquanto subíamos rio acima para chegar a uma cascata. Mas chamar-lhe cascata é injusto, aquilo era uma obra de arte.
Agora, imaginem as imagens que eu poderia mostrar com filtros do instagram, ou sem filtros. Imaginem o que eu poderia dizer . Pois. Parece-me que já não sou uma blogger.

Eu faço legos e descasco laranjas

21.9.16


O facebook achou que eu ia gostar de rever aquela foto ali em cima (será que daqui a 300 anos alguém vai saber o que foi o facebook?) e, realmente, tinha razão. Gostei muito. Aliás, fiquei até meia intrigada, porque tenho pensado bastante nesses tempos, e ocorreu-me que se calhar o facebook também lê pensamentos. Ainda por cima aquela fotografia é de Maio de 2011, o Nicolau tinha duas semanas, portanto aparecer-me como uma efeméride de Setembro é estranho (entretanto fui confirmar e, afinal, não é aquela foto, é uma outra em que eu também estou com sling, mas não deixa de ser bizarro, pronto, ou até mais ainda com esta confusão)
Enfim, vem tudo isto a propósito de ter-nos calhado um horário escolar que faz com que tenha sempre um dos dois comigo, o Nicolau de manhã e o Isaac de tarde, e, por isso, tenho a sensação de que os meus anos de caos regressaram, como se pode ver no cenário da outra fotografia, que é o meu local de trabalho.
Bem sei que, como diz o inigualável Mário de Carvalho, "ninguém tem o menor respeito pelo trabalho da escrita" e se até Alexandre Herculano era acusado de não fazer nada, o que posso eu, uma aspirante, esperar? Não posso deixar de transcrever a hilariante passagem do livro "Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão": "Conta-se que a velha criada de Alexandre Herculano, quando um jornalista curioso lhe perguntou o que fazia o mestre desterrado em Vale dos Lobos, respondeu: «Não faz nada. Nadinha. Passa os dias a ler e a escrever»". Maravilhoso.
Ao menos eu posso dizer que faço legos e descasco laranjas e explico como se faz contas de subtrair.