Riso

29.8.16
Perguntaram-me, durante as férias, como são os timorenses e eu, depois de um ano em Timor, estou perfeitamente à vontade para dizer que não faço ideia. É tão fácil gostar dos timorenses como é difícil defini-los. Sei, pelo pouco que vou observando, que passam da afabilidade à violência, e vice-versa, num piscar de olhos. Sei que adoram festas, sei que ainda há um grande respeito pelos mais velhos, que levam muito a sério as tradições e que a morte é vivida de uma forma muito intensa. O luto é muito mais do que a manifestação de pesar pela pessoa falecida, há uma espécie de entusiasmo à volta do funeral e do aniversário da morte dos familiares.
Enfim, identifico algumas características que na verdade dizem-me alguma coisa sobre este povo, mas não posso ter a veleidade de acreditar que sei como são os timorenses.
E dessas características, uma das que me deixa mais desconcertada é o sorriso que mostram perante o sofrimento, ou uma situação desconfortável. Não é bem um sorriso é mais um riso. Parece-me comum em alguns povos asiáticos, mas o dos timorenses é diferente. Ou talvez seja por eu saber do que se riem, quando sei, obviamente. No outro dia dizia-me o S. que o pai já não falava e eu, sem saber bem o que dizer, saí-me com a pérola "talvez tenha chegado a hora dele" (eu sabia que já estava doente há algum tempo) e o S. riu-se e disse que sim, que tinha chegado a hora dele (morreu ontem).
É desconcertante, mas admirável ao mesmo tempo. Eu gostava de me rir quando conto que vou ao google maps ver a rua onde vive a Bea.

Já que perguntaram

26.8.16
Sim, chamando-se Solange arranjou um namorado. Trabalhavam juntos, num restaurante bem frequentado, daqueles em que as pessoas vão bem vestidas e bebem sangria de frutos vermelhos. Ela na copa, ele a servir às mesas. Os horários de cada um nem sempre facilitavam o namoro, mas eles lá iam encontrando formas de beber uma caipirinha no fim do expediente, ou de dar uma rapadinha na despensa, ao lado da casa de banho, no intervalo da tarde.
Eles davam-se mesmo bem, tinham até grandes planos para o futuro.
Um dia ele faltou a um encontro, o que até nem seria de estranhar, tendo em conta as mudanças de turnos e as idas ao ginásio e os pais dele sempre doentes, mas naquele dia ela ficou muito aborrecida. Era o aniversário deles. Ela tinha comprado um vestido e uns brincos. Só não comprou os sapatos, porque não havia o número dela. Enfim, ele não apareceu e ela telefonou-lhe uma vez, duas vezes, três vezes, 24 vezes e nada. Decidiu ir ter com ele e apercebeu-se que não sabia onde é que ele morava. Perguntou, caminhou em cima dos sapatos que não eram novos mas que ainda assim mereciam melhor tratamento, voltou a perguntar e descobriu porque é que o seu grande amor a deixou pendurada. Era o dia de casamento dele.
E agora que volto a esta história já não sei se foi depois disto que ela decidiu mudar de nome.

Do regresso

22.8.16

Antes de sair de Timor, para passar férias em Portugal, eu espantava algumas pessoas ao dizer que não estava assim tão ansiosa por visitar ao nosso querido país. Aliás, custava-me perceber aqueles "está quase!" trocados entre conterrâneos e acompanhados de sorrisos cúmplices, como se só eles soubessem do que estavam a falar.
Agora sei. Agora sei que vai ter de passar mais um ano, ou dois, até voltar a sentir frio; até voltar a juntar toda a família à volta da mesa; até estar de novo ao vivo com as pessoas de quem gosto tanto; até sentir a angustia perante a prateleira dos iogurtes e dos shampôs, porque uma pessoa já não sabe o que é ter tanta oferta da mesma coisa; até sentir outra vez o sabor dos mexilhões, da pescada e do sarrabulho; até sentir o cheiro daquele mar; até adormecer e acordar rodeada de familiaridade...Não é que não soubesse antes de ir, mas agora sei de outra forma.
Agora sei, também, o que quer dizer o encolher de ombros e o sorriso resignado dos que regressam de férias. Quer dizer: o que eu queria era ter lá ficado.

Poderão dizer-me que isso é exactamente o que sente toda a gente quando termina as férias, e dirão muito bem, mas uma coisa é sair de casa para ir de férias, outra coisa é ir de férias para casa.
Ir de férias para casa é todo um novo conceito para mim. Ele é a Decathlon que passa a ser a loja mais importante, ele é marcar quatro consultas médicas de diferentes especialidades na mesma semana, ele é listas de coisas que precisamos de trazer (e depois apercebo-nos que não trouxemos os casquilhos, nem as tomadas eléctricas), ele é carrinhos cheio de tralha só porque é uma tralha mesmo bonita e aqui não há coisas daquelas bonitas à venda, ele é assinar papeis para resolver burocracias. Enfim todo um mundo novo de veraneio. Uma espécie de interlúdio da vida de todos os dias para viver a vida que tínhamos antes.

E no fim custa regressar. Há um pedaço arrancado de mim que ficou lá (nota: ouvir a Ópera do Malandro) e a insularidade pode ser uma cena fodida, além de que as rotinas, mesmo numa ilha tropical cheia de encantos, não deixam de ser rotinas.
Só que depois chegamos à nossa casa tropical e temos o nosso cão à espera, num contentamento louco. Vemos o pôr-do-sol, corremos os olhos pelo verde Timor, damos um mergulho no mar, bebemos água de coco e acordamos com o som dos pássaros nos ouvidos - eles estão do outro lado da janela do quarto, mas parece que piam como se nos contassem segredos.
Enfim, depois, tudo está como tem de estar.
É um pouco como diz na crónica da Alexandra Lucas Coelho, trocando o nome dos países: Morar em Timor é bom mesmo sendo uma merda.

Solange

17.8.16
Os meus filhos decidiram mudar de nome. Um quer ser chamado de Victor (com o som do "c" a ser considerado) e o outro António. Acho que foi por esta altura que a Beatriz também se virou contra o seu nome próprio, dizia que preferia chamar-se Catarina, se não estou em erro.
Se eu soubesse que ia ser assim tinhas-lhe dado o nome de "Primeiro", "Segundo" e "Terceiro", como é costume em Bali, e depois eles que decidissem o seu próprio nome.
Em Timor também é costume usar-se o nome de estima, em vez do de baptismo, mas não me estou a imaginar a chamar o Nicolau de António e o Isaac de Victor, mesmo sendo nomes que até me agradam.
Lembro-me perfeitamente de me perguntar se eles iriam gostar do nome que escolhemos para eles, porque se para nós fez todo o sentido escolher Isaac (depois do pai ter sonhado que ele ia nascer a rir - é esse o significado do nome), e Nicolau (quando soubemos que ele ia ser um rapaz, no dia de S. Nicolau), isso não significa que eles tenham de achar piada. Da Beatriz, por acaso, não me ocorreu que ela viesse a desgostar do nome escolhido por causa do livro "O Século Primeiro depois de Beatriz", do Amin Maalouf. No entanto, parece que foi o que veio a acontecer.
Seja como for, e apesar de ser um assunto sobre o qual não perdi muito tempo a pensar, parece-me que o nome que recebemos quando nascemos tem sempre uma razão de ser e o melhor que temos a fazer é viver com ele e pronto. Mas há quem não consiga.
Não sei se serão muitas as pessoas que escolhem mudar de nome, sem contarmos as transexuais, mas era engraçado saber os números e os nomes escolhidos. Tenho o pressentimento que nem sempre mudam para melhor, apesar disto não ser propriamente o mesmo que nomear personagens de uma história, já que não há bons e maus nomes, apenas nomes de que se gosta.
Por exemplo, conheço uma pessoa que mudou de nome, já adulta, porque achava que a razão de não conseguir arranjar um namorado era por se chamar Saúde. E que nome é que ela escolheu? Solange.

Meu querido mês de Julho

12.7.16
A viagem a Portugal, com uma visita a Amesterdão, mais uma semana sem carregador do computador foram excelentes pretextos para me manter afastada daqui. Não tenho tido vontade de escrever no blog não sei ao certo porquê. Mas tenho de arranjar uma forma de o fazer, porque há coisas sobre as quais tenho mesmo vontade, ou necessidade, de escrever. Os olhos a lacrimejar na sinagoga portuguesa, em Amesterdão, e um encontro casual com uma amiga no sítio mais improvável da capital holandesa é uma delas. O facto de terem cortado o pescoço do meu cão, em Díli, enquanto a minha mãe me sugeria eutanasiar os meus gatos por causa do pêlo e do vomitado espalhados pela casa, e do tanto que isso diz sobre as duas realidades em que vivo, é outra.
Mas há mais. Haveria muito a dizer sobre os braços magros da minha avó e da pele tão transparente que deixa à mostra a vida a correr-lhe nas veias. Sobre  o reencontro com algumas das minhas amigas, ou o sabor do feijão verde que acompanha as batatas e a pescada cozida. Sobre a temperatura amena do meu país, nesta altura do ano, e a água gelada do mar da Costa Nova. Sobre a coach mental do Éder, a traça pousada no rosto do Ronaldo e as notícias que me chegam de Díli a respeito dos festejos da vitória de Portugal. Sobre o tratado filosófico que é uma viagem pelas estradas nacionais, ou o tão em voga mindfulness que consigo atingir enquanto subo as centenas de degraus do monte da minha aldeia. Sobre o quão mais fácil é viver no mesmo fuso horário que as nossas pessoas.
Talvez um dia destes eu consiga vir aqui escrever sobre isto tudo, ou talvez não escreva e pronto. Precisar de escrever é uma coisa e precisar de público é outra. E nem sempre é fácil distinguir as duas coisas. Acabamos viciados na escrita, na decomposição do nosso sentir, sem termos bem a noção de que o verdadeiro vício é o reconhecimento, mas esse é o drama de todos os exibicionistas, certo? (há quem lhes chame artistas, mas o meu pudor barra modéstia barra insegurança quase doentia não o permite).
Talvez esta fase da minha vida exija um outro tipo de registo, não sei. Vamos indo, vamos vendo. Enquanto isso obrigada a quem está desse lado.

Fazer nada

17.6.16

Admiro profundamente a filosofia cosseriana da preguiça, mas devo dizer que há poucas coisas tão extenuantes como fazer nada. É certo que Cossery não tinha de interromper as suas reflexões para limpar o rabo a um filho e descascar uma laranja a outro, ou varrer os restos de comida espalhados pelo seu quarto da Saint Germain-des-Prés, mas ainda assim sabemos que essa actividade interior é, ou pode ser, muito intensa.
Por isso, muitas vezes eu desejo ter um emprego. Ter um emprego é uma coisa fantástica para se deixar de pensar. Passa-se a ter preocupações, que é diferente. Mas ter um emprego, a fazer coisas importantes, como aumentar o número de visualizações nas redes sociais, ou a testar o interesse dos consumidores em determinado produto, obriga-nos a levantar de manhã e a vestir uma roupa bonita, a fazer qualquer coisa ao cabelo e a pôr batom do cieiro. Obriga-nos a sair de casa e a deixar as crianças em algum lado, ou entregues a alguém que cuide delas. Obriga-nos a fazer coisas muito chatas e a ter reuniões insuportáveis, que depois precisamos de compensar com gin tónicos e umas férias num sítio exótico.
Basicamente, apetece-me ser como Sarag mas, felizmente, só às vezes.

Poesia, vida e morte

14.6.16

Há momentos na vida em que uma pessoa se vê a fazer coisas deveras estranhas, e nem sempre relacionadas com o consumo de álcool. Um exemplo: cantar o hino nacional, no dia 10 de Junho. Bem, isso não é o mais estranho até porque quase posso jurar que já o cantei, ou trauteei, vá, num europeu de futebol e isso, sim, é de deixar os queixos caídos (ou não, há belíssimas prosas sobre essa paixão pelo desporto rei e apesar de a minha ter sido uma pequena chama que se esvaiu, foi um bonito sentimento. Só voltei a gostar da Grécia por causa do Tsípras, mas não misturemos política e futebol, apesar de parecer tudo a mesma coisa).
Mas como eu estava a dizer, antes do parêntesis, o mais estranho não foi cantar o hino, o mais estranho foi cantá-lo com uma certa emoção e tudo. Uma pessoa emigra e é isto!
Quer dizer, na verdade o mais estranho mesmo foi cantar emocionada pela nação valente e imortal, depois de ouvir o Pátria, um hino contra o imperialismo. Mas as nações são isto: Poesia, vida e morte. Às vezes paz, às vezes guerra. Às vezes fome e sede, às vezes fartura, conforme as colheitas, ou os mercados.

Se me tivessem dito

7.6.16
Quando tiveres 43 anos vais estar a viver numa ilha distante. Lá, vão acontecer-te coisas boas e coisas menos boas, como em todo o lado. Vais descobrir que o mundo não tem tamanho, ou tem o tamanho que lhe quiseres dar. Vais tentar aprender uma língua nova. O teu filho do meio vai partir um braço, a tua filha mais velha vai pedir-te para regressar a Portugal e o pai dos teus filhos vai ter experiências menos boas no trabalho. Vais fazer coisas que nunca tinhas feito na vida, como reiki, ballet, snorkeling, todo o terreno e uma tatuagem. Vais sentir-te perdida, muitas vezes, e outras tantas agradecida. Vais comer e beber muito bem e vais apanhar doenças complicadas. Vais conhecer pessoas novas e sentir falta das que deixas para trás. Vais querer ser feliz mas, como sempre, não vais saber como. Vais ver os teu filhos felizes e descobrir que o do meio não gosta muito de aprender as matérias da escola. Vais gostar dessa ilha. Vais gostar de viver lá.
Se me tivessem dito isto há uns anos acharia possível mas ainda bem que só sabemos o futuro depois de o ter vivido.

Os Tobias Catatuas têm uma casa nova

2.6.16

O Isaac e o Nicolau tinham uns animais de peluche que serviam de objecto de conforto, sobretudo o do Isaac. O do mais velho era um cão e o do mais novo um gato. O cão do Isaac viveu várias aventuras e há dois anos ficou perdido num hotel em Bali. Nesse ano, o Pai Natal encontrou-o, quando passou pela Indonésia (deve ter feito um enorme desvio, coitado!), e trouxe-o. O Isaac chorou de alegria agarrado ao cão.
Entretanto, voltamos a perder o cão, e também o gato, num hotel em Same, que fica a 35 Km de Díli, ou seja, a quatro horas de distância, ou mais. Portanto o cão ficou lá para sempre. Quer dizer, o Isaac ainda acredita que ele vai voltar.
Depois disso, passamos numa loja do Timor Plaza com um caixote enorme cheio de bonecos e o Nicolau pediu-nos um. Perante a nossa recusa lembrou-nos que a culpa de terem perdido os outros era nossa. Usou argumentos bastante plausíveis, até, mas toda a gente sabe que não há nada como a culpa para conseguirem coisas que não interessam para nada.
Lá vieram para casa, cada qual com o seu bicho: um leão para o Isaac e um transgénico para o Nicolau. Chamam-se os dois Tobias Catatuas, não faço ideia porquê, e é o Isaac que brinca com os dois, porque o Nicolau, o que queria muito, muito ter um boneco novo, afinal, não quer saber dele para nada. E isso diz mesmo muito sobre a personalidade deles.
Da mesma forma que o processo de construção daquela casa diz muito sobre a minha, mas isso fica para um outro dia.

Nós, as mães normais (num dia normal de 2011)

31.5.16

Temos os espelho sujos; tiramos fotografias desfocadas, porque há mãos pequeninas a pedir-nos colo, e outras escuras, porque as divisões da casa não têm todas a mesma luz. Nós, as mães normais, e grávidas, gostamos de fatos-de-treino (sim, FATOS-DE-TREINO e não me venham com merdas que há uns anos ninguém ousaria sair à noite de chinelos de dedo e de repente as havaianas passaram a fazer parte dos outfits mais cool), mais do que isso, precisamos deles como os piolhos de cabeças humanas. Nós, as mães normais não temos, sempre, lençóis a condizer com edredons e cobertores; toalhas de mesa bordadas e outras coisas que tais. Nós, as mães normais temos pijamas ridículos.
E para mostrar isso mesmo acordei um dia destes (na segunda-feira passada) com a ideia fixa de registar o dia com imagens. A ideia era clicar de hora em hora estivesse eu a fazer o que estivesse, mas essa parte não se revelou fácil, porque me esquecia de confirmar as horas. Por isso, fui fotografando algumas das rotinas diárias sem grande preocupação com o relógio. O dia acabou por se revelar atípico, porque a Bea não esteve em casa (estava excepcionalmente com o pai num dia da semana), o Isaac não fez cocó e o Jaime não trabalhou nessa tarde. Ainda assim decidi que devia publicá-lo, por nós, as mães normais. Podem vê-lo aqui.

P.S Devo só acrescentar que há mães normais que fotografam melhor, nas mesmas condições. E que não se dão a este tipo de exibicionismos.

[Normalmente, quando faço repostagens significa que está na altura de mudar de blog (este não é o primeiro, como algumas pessoas, aí umas seis, se devem lembrar), mas esta apeteceu-me mesmo muito.
Na altura, em 2011, eu era uma pessoa muito mais ressabiada e chateava-me ver blogs de pessoas bonitas com casas maravilhosas e filhos lindos que, mesmo despenteados e com ranho, parecem os anjos de Rubens. O bluebird, que no entanto aprecio, era um desses blogs que costumava mostrar fotografias de cenas "normais" do dia-a-dia.]