Cartas de Lisboa #1

17.5.17
Mamã linda,
Como sempre, a minha vida é um filme (se isso se deve a acontecimentos ou simplesmente à minha tendência para dramatizar [primeira e última vez que me vais ver a admitir isto] é algo debatível, mas eu diria que é uma mistura pouco saudável dos dois). Há coisas muito boas, como ter finalmente encontrado OS meus amigos que ouvem os meus dramas e se riem quando é altura de rir, choram comigo quando é altura disso e têm de ser impedidos de dar murros às pessoas que me chateiam ou finalmente sentir que me enquadro mesmo no ambiente da minha escola. Há coisas pequenas também muito boas, daquelas coisas discretas que sem atenção nem se notam, como andar a descobrir tanta mais música incrível (ouve Liniker - Zero, de nada) do que o costume ou já não querer saber do que vejo ao espelho antes de sair de casa porque a maior parte dos complexos já se foram, ou até ter ganho completamente o hábito de desenhar ao ponto de ter encontrado aí mais um porto seguro (tipo como antes só tinha a música e até certo ponto a leitura). Entretanto voltei a ler, acabei ontem o The Great Gatsby (pela terceira vez), estou a meio do Guerra e Paz e estou também a reler o Persuasão (ainda me estou a habituar aos 20mil nomes diferentes do primeiro, e acho que desta vez estou a gostar ainda mais do segundo). Também comecei a ler poesia, descobri que existe mais poesia além da que aprendemos em português e da que o meu pai faz questão de recitar nas piores alturas para as pessoas mais desinteressadas por poesia de sempre e comecei mesmo a gostar muito. Até, quem diria, voltei a escrever e estou a tentar aprender uma peça de piano (das a sério e não as minhas “musiquinhas”, que já agora estão cada vez mais parecidas com música a sério). Talvez já seja óbvio a este ponto, mas arte tem sido o meu refúgio e sinceramente sem estas coisas não sobreviveria.
As saudades funcionam mais ou menos em ondas. Estão sempre lá, mas afetam-me de formas diferentes dependendo de sei lá eu o quê. Por exemplo, como vou a pé para casa todos os dias passo pela escolinha dos meninos. Às vezes isso deixa-me um sorriso na cara, uma certa nostalgia, como hoje. Outras vezes só não desato a chorar porque estou em público (e mesmo assim). Tal como as coisas boas, a falta que sinto de todos vocês tem coisas grandes e coisas pequenas. Ou seja, há o óbvio que já toda a gente sabia que se ia sentir, tipo nunca estar convosco e não termos os nossos fins de semana. Mas ninguém me avisou que eu ia ficar vulnerável quando as minhas sobrancelhas começassem a ficar nojentas porque quero que seja a minha mamã a arranja-las, nem que eu ia ouvir música fixe e pensar imediatamente “será que o jaime aprovaria?” (ou essa questão ser o que me ajuda a escolher roupa de manhã quando acordo com tempo suficiente para pensar em seja o que for), nem que eu ia estar a fazer trabalhos e sentir falta dessas lindas pestes a interromperem-me (imagine-se) porque já que vou acabar por me distrair de vez em quando ao menos que seja por dois rapazes tão lindos como os nossos.
No outro dia estava a pensar como é que eu seria quando fosse velha e depois apercebi-me de que ia ser velha e ia morrer e comecei a ter uma crise existencial e fiquei meia hora sentada no chão da casa de banho a pensar no Isaac e como eu o compreendo (isso ainda não me passou muito, por isso não vou falar mais de envelhecimentos nem nada do género).
Estou prestes a escolher a área que vou estudar nos próximos dois anos e daqui a 3 semanas as aulas acabam, mas não estou particularmente nervosa com nenhum dos dois (ahahahahahahaahahahahahahahaahahahahahahahahahahahah). Ok, pronto, não estou super segura da minha decisão (logo eu sempre tão pouco indecisa não percebo), mas acredito que é a decisão certa e se não for olha depois trata-se disso (uma crise existencial de cada vez, por favor).
Acho que já mencionei isto algumas vezes, mas preciso mesmo de sair de casa. Não consigo viver num ambiente tão tenso, muito menos sabendo que há uma solução que me trará tanta mais felicidade. Eu sinto, literalmente, o mundo à minha volta a chamar por mim. As exposições às 19 que são muito tarde para dias de escola, os concertos aos fins de semana para os quais não tenho idade (porque se no cartaz diz +13 só pode significar +20), os amigos que me ligam numa sexta à meia noite a precisar de companhia porque estão à beira de um ataque de pânico que eu não posso ajudar porque nunca na vida poderia sair a uma hora tão escandalosa. Entre tantas e tantas outras coisas. Sabes aqueles meus feelings de bruxa? Aqueles assustadores porque como raio é que eu adivinhei? Eu tenho esse feeling em relação a isto. Eu tenho a certeza que vou ser muito mas muito mais feliz. Tens noção do que é sentires-te tão pouco em casa que preferes estar na escola (com ou sem aulas, não interessa) do que no sítio onde vives?Tens.
Enfim, eu tenho um trabalho de desenho para acabar e também não posso gastar todos os assuntos numa carta, não é?
Beijinhos (para todos),
Bea

Memórias sensoriais

13.5.17
Com este clima nunca me tinha ocorrido tricotar, mas como pretendemos ir a Portugal no Natal resolvi trazer lãs e agulhas da última vez que lá estivemos.
Um dia destes estava na sala com o ar condicionado ligado (os desta casa funcionam mesmo bem) a montar e contar malhas e ouvi um camião a passar na rua. Nesse momento pensei que estava na casa da rua Maria, em Lisboa. O som lá fora, que me pareceu um eléctrico, a temperatura normal da sala e o tricot criaram esse momento, bastante confuso, devo dizer.
Mas não foi a primeira vez. Já antes, também nesta casa, estava deitada e um carro a apitar na rua fez-me acreditar que era a peixeira que costuma passar de manhã na minha aldeia.
Ficamos sempre com marcas dos sítios, parece. Estranho é as minhas memórias sensoriais não me levarem ao meu Porto.

Cartas de Díli #2

8.5.17
Querida Bea,

      Já estamos instalados na nossa casa nova. Fica perto do mar e tem um jardim muito bonito. Eu sei que o Jaime já te mostrou a casa no skype, por isso poupo-te os detalhes, menos o dos macacos. Sim, temos macacos, vi-os ontem em cima do telhado e apesar de não apreciar por aí além a espécie, não consegui deixar de ficar enternecida e quase maravilhada a olhar para os dois animaizinhos que se coçavam e nos miravam com igual interesse.
      Depois, fiquei a saber que os macacos mudaram-se para esta zona da cidade quando foram expulsos do jardim de Lecidere . Compreendo-os muito bem, é definitivamente a melhor localização para se viver em Díli.
      A casa tem um quarto de hóspedes com casa de banho e, muitas vezes, imagino que é o teu quarto. Eu sei que não gostas do calor e da lentidão dos dias em Timor mas, acho, haverias de gostar desta casa. Tem uma luz boa e um silêncio justo. Aos domingos de manhã ouvimos a missa da igreja de Motael e o Nicolau a andar de patins na sala.
      Escusado será dizer que ainda não comecei o meu plano de acordar cedo para caminhar junto ao mar, mas eu e os meus planos falhados são um clássico nesta família.
      Além da mudança de casa não aconteceu nada de muito relevante nas últimas semanas. Houve o momento da caixa de legumes da FarmPro (uma ONG que trabalha com agricultores de Ermera e faz entregas a quem subscrever o serviço) que me encheu de entusiasmo, não só por gostar do projecto mas porque é impossível não ficar radiante perante a variedade de verduras: brócolos, couve-flor, espargos, quiabos, rúcula, courgette, beringelas, etc.
      Também tivemos uma manhã fabulosa na praia do Cristo Rei. Estava maré alta e o mar tinha ondas, muitas ondas. Dá para acreditar? E imagina que chegámos a ter um bocadinho de frio quando saímos da água e tudo. Uma maravilha!
      Portanto, uma caixa de legumes e uma manhã de praia foram as coisas que me fizeram feliz por estes dias. Vamos considerar que isso é uma coisa boa, ok? Até porque a caixa de legumes também tinha ovos e morangos e, além disso, eu sou de gostar de coisas simples, como lambuzar-me de papaia e anona acabadas de colher, ver o pôr do sol na areia branca (agora que falo nisso já não vejo um há muito tempo) e estender-me a ler um livro.
      Ah, li o da Isabela Figueiredo, "A Gorda" e lembrei-me de quando a Carla nos perguntou, a mim e à Helena, se sabíamos de alguma casa para emprestar à Isabela para ela conseguir terminar o livro. Foi quando estivemos a três juntas no Porto e o Jaime teve a ideia de usar uma banheira como carrinho de rolamento, na Grande Descida de Carros Artesanais, lembras-te?
      Só mais uma coisa, vai ver o Guardiões da Galáxia 2. Acho que é impossível não gostar, mesmo sem legendas em chinês e bahasa. A banda sonora é soberba.

A casa nova

4.5.17

O Sr. Abel começou a podar a sebe de buganvílias. Acho que lá para Junho deve terminar. Não por causa do tamanho da sebe, que até é grande, mas porque vai podando aos bocadinhos, uns dez minutos por dia. Depois senta-se a olhar para o infinito. Aprecio-lhe sobremaneira esta forma de passar os dias. Há quem precise de fazer workshops e retiros para conseguir fazer isso, note-se. E, afinal, é muito simples: Um salário para os bens essenciais, um sítio para esticar o corpo durante a noite e tempo livre.
Pelo menos é o que parece visto de dentro da casa com cinco divisões mais a sala e a cozinha. E um closet. Não sei se o Sr. Abel consideraria um closet um bem essencial. 
Parece-me tudo excessivo na nova casa, menos o jardim. Não me importo nada de ter um jardim grande e frondoso, porque os jardins têm mosquitos (e muita fauna em geral) que, juntamente com o calor, são grandes aliados do anti-burguesismo. 

Ora bem

2.5.17
Mudei de casa e até aqui nada de novo, certo?
Quase certo, porque nunca antes tive um jardim assim. Ele tem:

Bananas


Limas (com muita sombra)

Carambolas

Fruta com nome desconhecido (para mim) que termina em nona (que aqui significa amante)


Outro nome desconhecido mas cujo fruto não é apreciado

Papaias

e Cocos
Ah, e o mar está logo ali, ao virar da esquina.

Cartas de Díli #1

24.4.17
Querida Bea,

      Quando nos separámos pela primeira vez, e eu ainda não sabia que as separações seguintes seriam igualmente dolorosas, decidi que devia escrever-te cartas com uma certa regularidade. Cheguei até a pensar que o ideal, mesmo, era fazer dessas cartas uma crónica mensal num jornal, porque assim não só me obrigaria a escrever, como conseguiria ser uma cronista a sério. Só que, depois de sondar uma ou outra pessoa sobre essa possibilidade, acabei por desistir da ideia.
      Acontece que desta última vez que estivemos juntas voltei a sentir essa vontade, muito por causa da prenda de aniversário que a Inês me deu, sabes? Não me lembro se te cheguei a mostrar (já estás habituada a estes meus lapsos de memória). Então, ela trouxe-me do Brasil um conjunto de cartas escritas por 12 mulheres em diferentes partes do mundo. Chama-se "Queria Ter Ficado Mais Tempo" e é da editora Lote 42. Ainda só li quatro, as de Buenos Aires, Tóquio, Berlim e Istambul, gostei mais desta última. Não sei como serão as outras cartas mas por enquanto a ideia parece-me melhor do que o conteúdo.
      E já que comecei a falar em livros, deixa-me dizer-te que tens toda a razão em relação ao "Burma Chronicles", realmente eu e o Guy Delisle temos muitas coisas em comum neste livro, se calhar foi por isso mesmo que a Luísa o quis oferecer-me. Aquela cena de ele ter grandes ideias sobre lançar uma revolução prostrando-se todos os dias em frente à casa da Aung San Suu Kyi, ou dar arroz todas as manhãs aos monges, e no dia seguinte continuar a fazer as mesmas coisas de sempre; os encontros de pais para as crianças brincarem e a dele ser a única que não tem ama; toda a gente a achar que ele desenha cartoons como hobby; aquilo de estar sempre a pensar como é que as pessoas vão levar todas as tralhas quando regressarem; a noção do quanto se está desconectado da realidade quando a maior preocupação é não se encontrar água tónica da Schweppes em lado nenhum (definitivamente deve ser a preocupação mais comum a todos os expatriados por esse mundo não ocidental fora); a ida a Bangkok com a lista de compras; o deixar de lavar a loiça aos fins-de-semana porque tem empregada (por falar nisso, a Domingas já voltou e deve estar a odiar esta segunda-feira) e por aí fora.
      O livro é mesmo espectacular e mostra bem o universo dos expatriados em geral e dos que trabalham em ONG em particular.
      Enfim, acho que seria mais fácil aproveitar esta experiência se, tal como ele, tivesse uma profissão e não um hobby, mas a verdade é que quem mais desconsidera o meu trabalho sou eu. Nem mesmo o que faço na Timor Aid consigo valorizar. Eu contei-te que estava a colaborar com esta ONG local no catálogo de Tais de Baucau, não contei? É bastante interessante o trabalho que eles fazem, mas eu só tenho de editar os textos em português. O tema não podia ser melhor- tecidos tradicionais, teares e técnicas de tecelagem e tinturaria. Talvez um dia possa ir com eles num trabalho de campo e escrever sobre isso.
      Entretanto, temos a festa de aniversário do Nicolau (como odeio fazer festas de miúdos) e amanhã, se conseguirmos, vamos festejar o 25 de Abril em casa de uns amigos. Depois, fazes tu 16 anos e pela primeira vez na nossa vida não vamos estar juntas no dia do teu aniversário. Já decidi que vou fazer um bolo na mesma e vamos cantar-te os parabéns aqui. Isto se não piorar desta alergia que me atacou assim que cheguei a Díli. A culpa é do ar condicionado mas o jet lag não ajuda nada. Aliás, estamos todos mais para lá do que para cá (esta expressão é bastante intrigante, apercebo-me agora), mas também não me admira com a viagem que fizemos: Porto-Lisboa-Istambul-Hongkong-Bali-Díli.
      Apesar de me custar sair de Portugal apercebo-me que aos poucos vamo-nos instalando, isto é, fazendo de Timor uma segunda casa. Vamos fazer mais uma mudança e tudo. Já estamos aqui há pouco mais de um ano e meio, quer dizer, estava na altura, tendo em conta o corrupio dos últimos anos. Depois, não usei a ida a Portugal para aqueles detalhes mundanos como cortar o cabelo e ir à depilação, deixei isso para fazer no regresso e toda a gente sabe que este é o tipo de coisas que nos faz sentir em casa. Acho eu.
      Na verdade já não sei nada sobre o que significa estar em casa, sobretudo depois de ir ao Bolhão, logo a seguir à nossa despedida em Campanhã, e ver aquela banca da fruta, quem entra pela Sá da Bandeira, a vender mais lichias e fruta dragão do que maçãs e pêras.

Trabalhar

27.3.17

Andar a pé em Díli é difícil. Perguntem a qualquer pessoa e todos dirão o mesmo. O calor, o pó, o trânsito e, nalguns casos, o assédio verbal desmotiva qualquer caminhante. Mas eu insisto em continuar a andar pelo meu pé, porque é uma coisa que preciso de fazer, quase como preciso de respirar. Por isso, sempre que possível, isto é, quando estou sem as crianças em casa, que apesar de poderem acompanhar-me, já que têm boas pernas para isso, vão o caminho todo a queixarem-se de tudo e mais alguma coisa, vou a pé ao supermercado. Demoro 20 minutos. 
Nesse percurso cruzo-me quase sempre com o vizinho que vende apostas numa mesa pequena e que me cumprimenta calorosamente com um: "Bom dia senhora, onde vai?" E eu respondo que vou passear, ou vou ao supermercado, ou comprar umas coisas, depende. 
No outro dia, decidi ir tomar o pequeno almoço ao da Terra que é um sítio que tem umas panquecas muito boas e um batido de kefir maravilhoso. Ao passar pelo vizinho fui cumprimentada calorosamente, como sempre, mas desta vez ele perguntou-me se ia trabalhar e eu, automaticamente, respondi que sim. 
Depois de já ter comido as minhas panquecas a simpática funcionária, pergunta-me: "Hoje não trabalha, senhora?" e eu automaticamente respondo: "Não, hoje não trabalho, estou de folga".
Fiquei bastante intrigada por nessa manhã diferentes pessoas quererem saber da minha vida profissional, mas se calhar deu-se uma daquelas coincidências de estarem os dois a aprender português e a palavra do dia ter sido "trabalhar". 
Quando me fui embora, e enquanto caminhava em direcção ao supermercado para tomar café, pus-me a pensar nas minhas respostas, e como automaticamente respondi ao que esperavam ouvir, e depois mais alguém me cumprimentou: "Bom dia, senhora professora".

O acontecimento

14.3.17
A Joss Stone veio actuar a Timor Leste e foi um acontecimento. Pelo menos para as três centenas e meia de pessoas que estiveram no Hotel Timor foi um grande acontecimento, proporcionado por dois moços que conseguiram incluir Díli na Total World Tour da banda (não há-de ser à toa que a empresa de eventos que gerem se chama No Limit).
Eu fui, claro. Não conheço quase nada do trabalho da Joss Stone, mas não ia ficar em casa quando acontece uma coisa rara destas. E gostei, achei que foi uma hora e tal muito bem passada e ainda fiquei a conhecer um bocadinho do novo projecto do Etson Caminha, que actuou no início.
Mas não é a música, nem o acontecimento em si que me traz aqui.
A certa altura a artista refere que tem muita pena por só poder estar 20 horas num país tão bonito, mas em contrapartida pode dizer que já actuou em quase todos os países do mundo. Ou pelo menos foi o que percebi.
Nessa altura pensei, a sério que há expatriados/emigrantes em todos os países do mundo? Sim, porque estes concertos não são para os locais, obviamente. Ou para todos os locais. Depois, fui confirmar por onde andou e vi, por exemplo, que no Laos o concerto foi na embaixada britânica, no Sudão numa escola internacional e no Malawi num centro de convenções.  Fiquei curiosa sobre quantas pessoas assistiram aos concertos dela por esse mundo fora (aqui os bilhetes esgotaram no mesmo dia) e pareceu-me limitado e ao mesmo tempo interessante conhecer o mundo por essa perspectiva.
Ou seja, se não puder desbravar caminhos e viver apaixonada pelo que faço, acho que podia viver como groupi da Joss Stone.

O supermercado

7.3.17

Um dia destes estava a ouvir as histórias fabulosas de um rapaz que trabalha aqui em Timor, na área da agricultura sustentável, e a pensar "meu deus, eu também quero fazer coisas assim, desbravar caminhos nunca antes desbravados, viver apaixonada pelo que faço, descobrir coisas novas sobre o Universo (nesta parte do mundo é fácil isso acontecer)", e depois fui ao supermercado.
O supermercado é o sítio onde vou mais frequentemente, não só pelas razões óbvias, mas sobretudo porque não há assim muito mais onde ir. Sim, isso mesmo. Quer dizer, há um shopping, mas não vamos falar sobre isso, e há a praia, mas como dizia no outro dia um italiano, a viver nesta parte do mundo há alguns anos, o Natal é especial, porque acontece uma vez por ano. Ou seja, quando se pode ir à praia todos os dias, a praia deixa de ser um sítio desejado.
Portanto, eu que sempre odiei supermercados agora passo a vida num. É claro que não é um supermercado qualquer (viste, Jaime, como sou tão simpática?), é o sítio onde quase toda a gente se encontra para tomar café, por exemplo, e é capaz de ser o supermercado com a melhor banda sonora do mundo.
Seja como for, depois da conversa que me pôs a pensar como seria bom desbravar caminhos nunca antes desbravados, viver apaixonada pelo que faço e descobrir coisas novas sobre o Universo fui abastecer a despensa e depois fui almoçar ameijoas e caril de camarão. Ou seja, fui à minha vidinha.
Só que o Universo é essa coisa muito engraçada e agora sempre que vou ao Páteo (Jaime, depois discutimos o preço deste post) olho para o jardim que está na foto e lembro-me da conversa com o tal rapaz, porque foi ele que fez aquilo.
Todos os dias, ou quase todos os dias, olho para aquele jardim e penso "que bom deve ser olhar para uma coisa destas e saber que fomos nós que a fizemos. Assim, tipo, fazer mesmo com as nossas mãos e que é a fazer coisas assim que ganhamos a vida".

P.S deu para perceber que o Jaime trabalha no supermercado, certo?

Bicho de estimação

23.2.17

Eu tinha uma pequena aversão a repteis que aos poucos se foi transformando numa quase relação saudável, desde que passei a viver com tekis dentro de casa.
No entanto, há um (uma?) que me anda a chatear. Eu reparei nele há uns tempo, porque ao contrário dos outros não se esconde sempre que alguém se aproxima. Antes pelo contrário, fica ali a olhar para nós, como se fossemos nós os intrusos. Nem com as duas flashadas que levou para esta fotografia ele se mexeu (será cego?).
Depois, tem um aspecto completamente diferente dos outros. É muito mais escuro e com umas patas mais parecidas com garras do que ventosas. Já andei a tentar perceber de que espécie de lagarto se trata mas não consegui.
Um dia, depois de o encontrar no meio de uns brinquedos dos miúdos, decidimos apanhá-lo e levá-lo lá para fora, só que nesse processo ele ficou sem cauda. Pois, coitadinho e tal, mas deixa lá que ela volta a crescer.
O que eu não sabia é que ia vê-la crescer, porque o bicho voltou para casa e faz questão de se pavonear por aí com a cauda em franco desenvolvimento. Outras vezes encosta-se ao lado da minha secretária e fica a fazer-me companhia como se fosse um animal de estimação.
O Jaime acha que o bicho merece o nosso respeito, no sentido de admiração. Eu acho-o feio. Um feio Almodóvar e só por isso apetece-me gostar dele, só que não consigo. Não confio nele, parece um daqueles seres capaz de tudo para ter atenção, inclusive matar outros tekis. 
Sim, estava um teki morto no chão da sala.